08 fevereiro, 2007

O Senhor de Peruíbe V

As crianças debandaram e os mais velhos simplesmente olharam, sem saber como agir.

— Se nós tivéssemos adultos por perto... – Porquinha começou depois de a floresta estar completamente carbonizada, com somente alguns pontos brilhantes, até pareciam estrelas.

— Nós não precisamos de adultos. Isso é uma autogestão. – atalhou Nonô.

— A concha, pegue a concha para falar. – disse Caio pegando a concha da mão de Porquinha. – E não adiantaria nada ter adultos por perto. Foi um acidente que só poderia ter sido evitado se nós não tivéssemos feito a fogueira. E todos sabem que ela é essencial para o nosso resgate.

— Pelo menos eu e Porquinha, que estávamos aqui não vimos ninguém ir em direção ao fogo. Acho que ninguém se feriu ou... – Manfrim não conseguiu terminar a frase, inseguro do que dizia.

— Ah, não? Alguém está vendo aquele menino do cabelo esquisito que estava lutando contra as árvores? – Porquinha apontou para a aglomeração de pequenos, ainda assustados, que se formava por perto.

— Ele deve estar perdido por aí...provavelmente – disse Bacchi, ou teria sido Marcel? Ah, dá na mesma.

— A concha, não se esqueçam da concha! – disse Caio, pegando a concha que parara na mão de Manfrim.

— Esquece essa concha, seu liderzinho burocrata de...

— Quem é você pra falar? – se rebelou Alexandre.

— Eu sou quem deveria ter sido líder, seu vira-casaca fracote.

— Ele foi eleito pela maioria, democraticamente. – disse Manfrim.

— Cala a boca, quatro-olhos! – interveio Vitor.

E sem se dar conta, Caio se viu lançando seu punho em socos para todos os lados. Porquinha e os gêmeos tentavam separar o coro dos meninos “do bem”. Mas a menina, devido ao seu tamanho e peso diminutos, foi atirada na direção da piscina. O jato de água decorrente disso pareceu chamar a atenção dos guerreiros, que travaram uma trégua silenciosa e se voltaram para a água. De lá saía a menor e mais assustadora figura que qualquer um deles já vira; encharcada e mancando por causa de um hematoma do tamanho da sua coxa, ela parecia à beira de um ataque homicida.

— Não olhem pra mim, seus imbecis! O que aconteceu com o Manfrim?

Lá estava, o dono dos óculos, semi-cego, tateando em busca da coisa mais próxima de um fósforo que eles tinham (óculos produz fogo –> fogo = luz/brilho = lampadinha = idéia ~ sabedoria), e lá estavam os óculos, ou metade deles rodeada por pequenos cacos de vidro.
(½ óculos = pessoas ½ burras)

Por sorte, a lente quebrada era a esquerda, mais fraca. Eles ainda poderiam usar a outra para fazer a fogueira. Mas Manfrim não parecia feliz com isso ao colocar o monóculo na cara.

Caio decidiu que eles não podiam se abalar, ele tinha que retomar o controle. Levantou a concha o mais alto que pôde, o que chamou a atenção de todos inclusive dos pequenos.

— Nós precisamos nos reestruturar, meus correligionários, imediatamente. Esses incidentes não podem acabar com a organização que nós alcançamos. Temos que – o que o levara a entrar naquela briga? Por que ele cedera à barbárie? O que ele estava dizendo? Todos o encaravam. – ah...temos que...tomar atitudes: Bacchiemarcel, eu quero que vocês juntem mais madeira e levem os óculos para fazer uma nova fogueira na montanha. Porque ela é importante.

— Sim senhor.

— Nós temos que, juntos, construir cabanas para nos abrigar da chuva e, bem, de qualquer outro perigo que possa nos perturbar.

— Seus bichas, quem precisa de cabana...Eu vou caçar. Aquele porquinho me escapou por pouco. Mas eu vou me vingar. – Nonô fez uma cara maléfica e se afastou com seus caçadores.

— Eu não posso ajudar por causa desse machucado. O que meu pai ia pensar se visse isso...

— Eu também não. Eu não enxergo e tenho asma.

— Você tem ass-mar*?

Passou-se algum tempo, os meninos estavam sujos, com roupas rasgadas e cabelos compridos. Mas Caio estava satisfeito. A fogueira fora mantida acesa durante a maior parte do tempo (mesmo que ela não tenha servido para nada, já que nenhum navio passou), as cabanas estavam em pé, ou praticamente, e não havia mais brigas. Por mais que, vez ou outra, algum dos pequenos, especialmente aquele Denis, acordasse com um pesadelo, não se falava mais em monstros e serpentes, nem no menino do cabelo grande.

Naquela manhã, durante a sua regular vistoria, o líder reparou no resultado da dieta rica em fibras daqueles meninos, baseada exclusivamente em frutas (algumas um pouco estragadas) e cocos (ver apêndice) – e ele cheirava mal. Ele devia convocar uma reunião sobre isso.


Honório, por outro lado, se frustrava mais a cada dia. Até agora não conseguira matar um porco sequer. E cada vez com mais freqüência ele se sentava em um canto, tremendo a perna e pensando no que o impedira de derramar o sangue de sua caça e nas formas que poderia empregar para conseguir da próxima vez. Naquele dia ele se sentia perto de achar a solução, quando ele ouviu o som que mais odiava. O sopro da concha chamava, e todos seguiam hipnóticamente.


*no original há um trocadilho intraduzível entre asthma (asma) e ass-mark (mancha na bunda). (N.T)

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14 Comments:

Blogger Utak said...

Eu.... eu.... eu....
..............
morri...?

fevereiro 08, 2007  
Blogger Camila T. said...

sinto muito...

pelo menos você não passou para o lado do mal...

fevereiro 09, 2007  
Blogger Thomás said...

Pelo menos você estava na ilha!

fevereiro 09, 2007  
Blogger muriel said...

hahahah como sempre muito bom!

fevereiro 09, 2007  
Anonymous Anônimo said...

Camila,
a referência a queda na piscina foi excelente. Fiquei aqui pulando que nem um retardado.

Nonô está ganhando um ar mais autoritário. Estou com medo do que possa acontecer com o proletário.

É imprescindível tomar cuidado com os rumos da história no atual estágio em que as personagens se encontram.

Nada mais.
Prolet. Arneiro

fevereiro 09, 2007  
Blogger Giulia T. said...

Hoje estamos aqui para celebrar a morte do menino de cabelo estranho.
Amém.

Quem mandou os idiotas terem a idéia de acender aquela fogueirinha... Arrhhhh... São uns imbecis, isso que dá deixar meninos tomarem conta das coisas...

Ass. Miss Piggy

fevereiro 10, 2007  
Anonymous Anônimo said...

tadinemo

fevereiro 10, 2007  
Anonymous Anônimo said...

Amai o próximo do mesmo geito que é amado. Falai que ama à aquele que realmente ama. Odiai aquele que te empurrou na piscina.

fevereiro 11, 2007  
Anonymous Anônimo said...

excelente comentário, guru!

fevereiro 11, 2007  
Anonymous Anônimo said...

ei pessoal, posso escrever o próximo capítulo?

fevereiro 11, 2007  
Blogger Giulia T. said...

Não, eu não concordo que vc escreva um capítulo, seria estranho.

fevereiro 12, 2007  
Blogger Utak said...

seria... errado!

fevereiro 12, 2007  
Blogger Giulia T. said...

Queremos apêndice!!!
Queremos apêndice!!!
Queremos apêndice!!!

fevereiro 14, 2007  
Blogger Camila T. said...

não posso postar o apêndice enquanto a Muri não postar o...uma outra coisa. existe uma ordem que eu preciso respeitar.

fevereiro 14, 2007  

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