22 junho, 2007

O Senhor de Peruíbe VI

Milagre! Eu postei uma continuação. Mas como faz tempo, eu bolei um método para relembrar um pouco da história. Quando uma parte do texto estiver desta cor, ela faz referência a episódios passados; ela é um link para a parte do Senhor de Peruíbe a que se refere. Eu também destaquei a parte mais importante para entender este post.


Eu notei esta manhã que muitos de vocês tem feito suas necessidades fisiológicas...

— O que? — interrompeu Bacchi, já um pouco lesado depois de tantos cocos na cabeça. Marcel rapidamente sussurrou a explicação para seu irmão para que Caio pudesse continuar.

— Pois bem, o que eu queria dizer é que eu notei que os seus...dejetos estão...sendo depositados perto do riacho, de onde todos nós bebemos água. A meu ver, isso não é apropriado. Eu convoquei essa reunião para instruí-los sobre um método mais higiênico de executar essas... eh...necessidades.

Foi então que Alexandre, em um momento de profunda iluminação, exclamou:

— E daí? O que importa é cagar!

Quantas vezes eu vou ter que pedir para vocês pegarem a concha antes de falar? Agora, Alexandre, deixe-me terminar de explicar. O motivo pelo qual eu acredito ser pouco saudável fazer...isso que você disse...perto do rio é que fezes podem transmitir doenças, parasitoses. Podemos desencadear uma endemia de alguma verminose, ou protozoonose. Vocês podem imaginar como seria desagradável a convivência entre essa quantidade de crianças todas com fluxo intestinal acelerado. Por isso, convoquei essa reunião para anunciar que Porquinha, auxiliada por duas amigas imaginárias, desenvolveu o projeto de uma Latrina (provando seus genes politécnicos), com fossas higiênicas e divisórias para privacidade. Esta maravilha do mundo moderno está localizada não muito longe da cabana, com acessibilidade garantida, mesmo de noite, porém não muito perto para que suas exalações não perturbem os nossos sentidos. O local foi escolhido para que não haja risco de contaminação. — Então foi como se uma cortina de nuvens cobrisse os seus pensamentos, ele ficou em silêncio por alguns segundos, afastou o cabelo dos olhos e continuou — A Latrina também poderá ser transferida para outra locação, a ser estudada, de acordo com as necessidades. Você quer dizer alguma coisa, Porquinha?

A menina estava inquieta, tentando chamar atenção e agarrar a concha.

— Em primeiro lugar, eu sinto muito, mas não vai ter mictório nenhum, isso seria inviável. Depois, eu fiz uma placa, indicando onde fica a Latrina, para que ninguém tenha dúvidas. SÓ USEM A LATRINA, PARA ESSAS FUNÇÕES, QUALQUER OUTRO LUGAR É PROIBIDO. E SÓ PARA NÚMEROS 1 E 2, NADA DE COISAS IMPRÓPRIAS E SUJAS! Entenderam?

Ninguém ousou discordar.

E assim as coisas funcionaram por algum tempo.

Ao final da reunião, Porquinha passou por Honório e perguntou:

E aí, Cerejinha, nenhum porco, ainda?

Se só te jogar no mato não adianta, você quer que eu te mate de cócegas também?

Manfrim estava por perto, e ao ver a cena, levou Porquinha para longe, ajudando-a a se locomover, já que ela ainda mancava por causa da queda na piscina.

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16 fevereiro, 2007

Apêndice Sobre a Abertura dos Cocos

ou

Homenagem a Marcel Macaco

Enquanto eu lia a obra prima do famoso autor William Golding, uma pergunta sem resposta me perturbava:

Como eles abriam os cocos?
Sendo eles crianças de, no máximo, doze anos, criadas na civilizada sociedade inglesa, em uma ilha deserta, com apenas uma faca de canivete disponível, me parecia impossível que eles fossem capazes de usar água de coco como base de sua alimentação. Mesmo que eles pegassem os cocos caídos no chão e não tivessem que chegar ao alto dos coqueiros, eles não teriam os aparatos ou força necessários para abrir a casca dos cocos.
Se O Senhor das Moscas não foi capaz de saciar a sua curiosidade, O Senhor de Peruíbe apresenta uma solução para esse problema crucial para o desenvolvimento da história.

Quando Caio se prontificou a dividir as tarefas domésticas para que a ilha se tornasse o mais doméstica possível, Bacchiemarcel ofereceram suas habilidades especiais para fornecer o suprimento de cocos.
Todos já tinham visto Marcel escalando árvores, pedras, dunas e penhascos com a destreza de um felino. Muitos tentaram imitá-lo, inclusive Vitor e o pequeno Denis, mas com resultados pouco satisfatórios e às vezes até preocupantes. Mas Caio e Porquinha acharam uma boa idéia usar a habilidade para algo, de fato, útil.
A tarefa era executada por Bacchiemarcel com harmonia mecânica. Todas as manhãs, Marcel escalava o coqueiro que lhe parecia mais carregado, soltava os cocos, um por um, e os laçava na direção de seu irmão. Bacchi, por sua vez, cabeceava cada um deles, que caíam rachados em suas mãos e eram imediatamente depositados em uma pilha, para qualquer um pegar.
Nos primeiros dias, uma das diversões favoritas dos pequenos era acompanhar Bacchi enquanto ele corria em volta do coqueiro para acertar os projéteis. E depois as crianças se impressionavam com os espetáculos de Marcel, quando ele descia dando mortais, fazendo acrobacias ou malabares com os cocos.
Talvez a operação tenha causado algumas perdas neurológicas para Bacchi, depois de repetidas vezes na função de abridor de cocos. Mas qualquer coisa valia a pena para ter algo o que beber além de água.
Apesar de Caio, sem dúvida, preferir um leitcheeeeenho!

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08 fevereiro, 2007

O Senhor de Peruíbe V

As crianças debandaram e os mais velhos simplesmente olharam, sem saber como agir.

— Se nós tivéssemos adultos por perto... – Porquinha começou depois de a floresta estar completamente carbonizada, com somente alguns pontos brilhantes, até pareciam estrelas.

— Nós não precisamos de adultos. Isso é uma autogestão. – atalhou Nonô.

— A concha, pegue a concha para falar. – disse Caio pegando a concha da mão de Porquinha. – E não adiantaria nada ter adultos por perto. Foi um acidente que só poderia ter sido evitado se nós não tivéssemos feito a fogueira. E todos sabem que ela é essencial para o nosso resgate.

— Pelo menos eu e Porquinha, que estávamos aqui não vimos ninguém ir em direção ao fogo. Acho que ninguém se feriu ou... – Manfrim não conseguiu terminar a frase, inseguro do que dizia.

— Ah, não? Alguém está vendo aquele menino do cabelo esquisito que estava lutando contra as árvores? – Porquinha apontou para a aglomeração de pequenos, ainda assustados, que se formava por perto.

— Ele deve estar perdido por aí...provavelmente – disse Bacchi, ou teria sido Marcel? Ah, dá na mesma.

— A concha, não se esqueçam da concha! – disse Caio, pegando a concha que parara na mão de Manfrim.

— Esquece essa concha, seu liderzinho burocrata de...

— Quem é você pra falar? – se rebelou Alexandre.

— Eu sou quem deveria ter sido líder, seu vira-casaca fracote.

— Ele foi eleito pela maioria, democraticamente. – disse Manfrim.

— Cala a boca, quatro-olhos! – interveio Vitor.

E sem se dar conta, Caio se viu lançando seu punho em socos para todos os lados. Porquinha e os gêmeos tentavam separar o coro dos meninos “do bem”. Mas a menina, devido ao seu tamanho e peso diminutos, foi atirada na direção da piscina. O jato de água decorrente disso pareceu chamar a atenção dos guerreiros, que travaram uma trégua silenciosa e se voltaram para a água. De lá saía a menor e mais assustadora figura que qualquer um deles já vira; encharcada e mancando por causa de um hematoma do tamanho da sua coxa, ela parecia à beira de um ataque homicida.

— Não olhem pra mim, seus imbecis! O que aconteceu com o Manfrim?

Lá estava, o dono dos óculos, semi-cego, tateando em busca da coisa mais próxima de um fósforo que eles tinham (óculos produz fogo –> fogo = luz/brilho = lampadinha = idéia ~ sabedoria), e lá estavam os óculos, ou metade deles rodeada por pequenos cacos de vidro.
(½ óculos = pessoas ½ burras)

Por sorte, a lente quebrada era a esquerda, mais fraca. Eles ainda poderiam usar a outra para fazer a fogueira. Mas Manfrim não parecia feliz com isso ao colocar o monóculo na cara.

Caio decidiu que eles não podiam se abalar, ele tinha que retomar o controle. Levantou a concha o mais alto que pôde, o que chamou a atenção de todos inclusive dos pequenos.

— Nós precisamos nos reestruturar, meus correligionários, imediatamente. Esses incidentes não podem acabar com a organização que nós alcançamos. Temos que – o que o levara a entrar naquela briga? Por que ele cedera à barbárie? O que ele estava dizendo? Todos o encaravam. – ah...temos que...tomar atitudes: Bacchiemarcel, eu quero que vocês juntem mais madeira e levem os óculos para fazer uma nova fogueira na montanha. Porque ela é importante.

— Sim senhor.

— Nós temos que, juntos, construir cabanas para nos abrigar da chuva e, bem, de qualquer outro perigo que possa nos perturbar.

— Seus bichas, quem precisa de cabana...Eu vou caçar. Aquele porquinho me escapou por pouco. Mas eu vou me vingar. – Nonô fez uma cara maléfica e se afastou com seus caçadores.

— Eu não posso ajudar por causa desse machucado. O que meu pai ia pensar se visse isso...

— Eu também não. Eu não enxergo e tenho asma.

— Você tem ass-mar*?

Passou-se algum tempo, os meninos estavam sujos, com roupas rasgadas e cabelos compridos. Mas Caio estava satisfeito. A fogueira fora mantida acesa durante a maior parte do tempo (mesmo que ela não tenha servido para nada, já que nenhum navio passou), as cabanas estavam em pé, ou praticamente, e não havia mais brigas. Por mais que, vez ou outra, algum dos pequenos, especialmente aquele Denis, acordasse com um pesadelo, não se falava mais em monstros e serpentes, nem no menino do cabelo grande.

Naquela manhã, durante a sua regular vistoria, o líder reparou no resultado da dieta rica em fibras daqueles meninos, baseada exclusivamente em frutas (algumas um pouco estragadas) e cocos (ver apêndice) – e ele cheirava mal. Ele devia convocar uma reunião sobre isso.


Honório, por outro lado, se frustrava mais a cada dia. Até agora não conseguira matar um porco sequer. E cada vez com mais freqüência ele se sentava em um canto, tremendo a perna e pensando no que o impedira de derramar o sangue de sua caça e nas formas que poderia empregar para conseguir da próxima vez. Naquele dia ele se sentia perto de achar a solução, quando ele ouviu o som que mais odiava. O sopro da concha chamava, e todos seguiam hipnóticamente.


*no original há um trocadilho intraduzível entre asthma (asma) e ass-mark (mancha na bunda). (N.T)

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29 janeiro, 2007

Senhor de Peruíbe IV

ou
A Fúria de Miss Piggy
por Muriel A.

Todos os meninos olhavam para a fogueira, mesmerizados. O primeiro a sair daquela espécie de transe foi Caio, que logo tratou de chamar a atenção do grupo.

­-Agora que já fizemos a fogueira, temos que descobrir se isto é mesmo uma ilha. Se não for, não vão demorar a nos procurar. Se for... – não chegou ao final da frase – de qualquer forma, temos que ir explorar. Acho que deveríamos ir em três, mais que isso e vai virar bagunça. Vou eu, o Honório e... – olhou para o círculo de meninos ansiosos – e Alexandre.

O menino magro levantou-se e foi até o Caio, os olhos brilhando.

-Eu vou – disse –sou bom de localização e geografia em geral. Posso ajudar.

O trio já se afastava pela praia quando Caio percebeu que alguém os seguia. Virou-se e deu de cara com Porquinha.

-Eu também quero ir – pediu ela.
Caio suspirou.

-É melhor não. Já vamos nós três.

-Mas sou eu que estou com você desde o começo! – insistiu, as bochechas e orelhas muito vermelhas, os olhos começando a lacrimejar.

Caio abriu a boca mais uma vez, provavelmente para dizer palavras de consolo, quando foi interrompido.

-Não queremos que você venha. – era a voz de Nonô.

Os enormes olhos de Porquinha pareceram se alargar ainda mais, e a menina parecia a beira do choro.

-Não é isso – começou Caio, tentando remediar a situação – é só que a gente acha que você pode ser mais útil cuidando dos meninos menores, perguntando seus nomes – e girou sobre os calcanhares, sem coragem de encarar Porquinha por mais tempo.

Os três foram andando pela praia, pisando com satisfação na areia branca e quente. Era de fato uma paisagem bonita: areia, mar e floresta até quase o horizonte. Iam quietos; cada um imerso em seus próprios pensamentos.

Algum tempo depois, os três chegaram a uma superfície rochosa; a areia macia aos poucos se transformava em pedrinhas e logo a frente havia rochas grandes cor-de-rosa, empilhadas umas sobre as outras, estendendo-se como um braço até a alguns metros dentro do mar.

-Parece glacê de bolo – observou Caio.

Mas Nono não estava prestando atenção. Ele olhava fixamente para a floresta.

-Temos que ir pelo mato – disse, apontando – só assim dá pra chegar lá no topo e ver tudo.
Seu tom de voz não admitia discordâncias, e os outros dois meninos limitaram-se a segui-lo.

Por baixo da sombra das arvores era consideravelmente mais fresco, e foi um alívio estar ali, depois do dia todo sob o sol quente. Andavam em fila indiana, Nonô à frente. Quase tropeçaram quando ele parou bruscamente, uma mão levantada em tom de aviso. Podiam ouvir uns barulhos indistintos... Eram guinchos desesperados.

Nono levou a outra mão ao bolso da bermuda e tirou de lá, para a surpresa dos dois meninos, uma faca. Não era muito grande, mas a lâmina brilhava na meia luz da floresta.

Descobriram, pouco a frente, um leitãozinho enroscado em cipós, contorcendo-se convulsivamente, tentando escapar das garras de hera. Seus guinchos eram altos e estridentes.

Honório levantou a faca ainda mais alto – o golpe seria mortal. Nos olhos do porquinho só havia o mais desesperado terror.

Então o leitão conseguiu escapar, e sumiu por entre as árvores.

Honório ainda ficou segurando a faca no braço erguido por alguns segundos, o rosto, normalmente rosadinho, muito branco.

-Eu estava escolhendo um lugar – balbuciou – eu só precisava de um momento para decidir onde pegar o bicho.

E cravou a faca com força em uma árvore. Da próxima vez não haveria mercê.

***

Caio, Alexandre e Honório continuaram pela trilha da floresta, que se tornava cada vez mais íngreme.

Finalmente chegaram ao topo. Estavam cansados, mas felizes: tinham conseguido. Lá de cima tinha-se uma boa vista panorâmica.

- Não dá pra saber se é uma ilha – disse Caio – a floresta vai até o horizonte.
-Talvez seja só uma ilha grande – retorquiu Nonô.
-Talvez... O que você acha, Alexandre?

Mas o menino não respondeu. Ele estava de costas, olhando para a direção de que vieram.

-Fogo – murmurou, os olhos arregalados – fogo...

Caio e Nono agora viam também. Ao longe, meio quilômetro quadrado de floresta ardia em chamas. As árvores estalavam como que com dor e desabavam, para logo serem consumidas pelas línguas vorazes do fogo.

Os três ficaram imóveis assistindo à destruição por apenas um segundo; depois viraram e correram o mais rápido que puderam.

***

Antes mesmo de chegarem perceberam o calor que vinha do incêndio e que se espalhava pelo ar.

Os meninos menores estavam encolhidos do lado da pilha de cinzas que fora a fogueira, assustados. Só havia uma figura de pé, escura contra a luminosidade ferina do mar de fogo.

Era Porquinha.

Quando o trio de exploradores chegou mais perto, ela se virou bruscamente, o rosto muito vermelho.

A verdade é que Porquinha tinha pouco mais de um metro e meio, mas, fosse pelas sombras lançadas pelas chamas naquele fim de tarde, fosse pela raiva que emanava da garota em ondas quase palpáveis, a questão é que ela parecia ser muito maior.

-Era uma fogueira o que vocês queriam? – gritou – pois aqui está a sua fogueirinha!!!

No mesmo momento, a poucos metros dali uma árvore estalou e explodiu, lançando trepadeiras e cipós por todos os lados, fazendo os meninos até então encolhidos saírem correndo, gritando “as cobras, as cobras! O monstro-serpente!”

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23 janeiro, 2007

O Senhor de Peruíbe III

Quase todos colaboraram com a construção da fogueira. Até os meninos mais novos carregaram gravetos da mata até o ponto escolhido para o farol improvisado, mesmo que alguns se distraíssem no meio do caminho. Porquinha revirou os olhos quando viu que um dos garotos –aquele com o cabelo esquisito, agora preso para trás com um lenço – parara entre as árvores empunhado um graveto em posição de ataque e fingindo-se de pirata. Mas nenhuma outra criança pareceu se interessar pela brincadeira.

Eles se mantiveram ocupados com o acúmulo de madeira durante o maior parte da tarde. Honório, por outro lado, estivera todo esse tempo sentado por perto entretido com seu passatempo favorito: tremer a perna frenética e incontrolavelmente. Então, de repente, ele lembrou a todos de um pequeno detalhe crucial que não lhes tinha passado pela cabeça;

—Como vocês pretendem acender a fogueira?

Caio, Bacchiemarcel, Manfrim e Alexandre olharam para ele sem resposta, desapontados e desesperados. Vendo isso, Porquinha reagiu, perguntando a Honório com seu jeito característico:

— Que tal você pensar em uma solução, Cerejinha?

— Oh pirralha, tá vendo aquele mato ali do lado? Eu estou pensando seriamente em te jogar lá. E para a sua informação, eu já tenho a solução.

— E é poeta...

— Você está me comparando ao...bom, não importa. Agora o mais importante... você quatro-olhos, você é míope ou hipermétrope?

— Hipermétrope. – respondeu Manfrim, um pouco atordoado.

— Ainda bem. – continuou Nonô, enquanto desenhava uma forma convexa no chão. – A lente dos seus óculos é convergente, por isso, se nós virarmos ela para o Sol, os raios de luz que chegam paralelos vão ser todos refratados para o mesmo ponto, de acordo com a analogia dos carrinhos, formando um feixe intenso que vai ser absorvido pela madeira, se transformando em calor e começando o fogo.

Ninguém entendeu nada dos rabiscos do menino, mas compreenderam seu propósito. Vitor se lembrou das longas tardes que passara na casas de seus avós, antes de ir parar naquele lugar, queimando formigas com uns óculos velhos, e sentiu saudades daquele tempo.

Manfrim entregou seus óculos para Caio, que o posicionou de modo a captar a luz do Sol que
vinha do oeste. Alguns segundos depois, um fio de fumaça surgiu e logo as chamas já formavam sombras fantasmagóricas nos rostos dos que estavam em volta.

Honório observou, um pouco afastado, enquanto todos aplaudiam e dançavam em volta de Caio por ele ter executado a sua idéia, baseada nos seus conhecimentos de física. Ele tremeu sua perna mais violentamente do que nunca, próximo da fogueira.

Um galho acesso se mexeu e uma fagulha voou em direção à floresta do outro lado da montanha. Foi o desastre e o início do caos.

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22 janeiro, 2007

O Senhor de Peruíbe II

A mancha negra tomou a forma de um grupo de menino com roupas de coral inteiras pretas e com chapéus pretos enfeitados com franjinhas prateadas. À sua frente vinha um menino loiro, corpulento, com cara de poucos amigos, vestido como os outros, só que com franjinhas douradas. Obviamente eles estavam morrendo de calor, mas aquelas roupas lhes conferiam certo status.

— Meu nome é Honório e eu sou o líder desse coral. Eu gostaria de oferecer as habilidades deles para o que for preciso.

Ao que Caio, intrigado, perguntou:

— Para que nós precisaríamos de cantores para sobreviver nesse lugar hostil?

— Sei lá. Mas eu posso cantar em fá maior, veja:
La cucaracha, la cucaracha...

Enquanto isso, o coro acompanhava dançando. Sendo o mais animado deles um magro, de cabelos escuros, chamado Alexandre.
Todos os outros meninos olharam atônitos. Mas antes de alguém conseguir sair daquele estado e tomar uma atitude, Alexandre caiu no chão desmaiado. Houve um alvoroço geral e, mais uma vez, os meninos incumbiram Porquinha de cuidar dele. Ela tirou o chapéu da cabeça do desmaiado e começou a abaná-lo, supondo que aquilo tivesse sido por causa do calor. Nonô quis saber quem era aquela...menina e Caio a apresentou.
— Porquinha? Suja! Suja!
O resto do coro recebeu um olhar ameaçador de seu líder e se sentiu obrigado a rir da menina também.
Ela, por sua vez, olhou para eles com o desprezo característico e necessário. E, vendo Nonô, que claramente era o que mais sofria com aquelas roupas e que mais se recusava a tirá-las, com o cabelo empapado de suor e as bochechas vermelhas como cerejas, disse:
— Se eu tenho um apelido, você também tem que ter: Cerejinha.
— Não! Isso diminui a minha autoridade. Tenho que me recuperar disso.
Nonô imediatamente derrubou Caio de seu montinho de areia.
— Nós precisamos de um líder para nos organizar. – ouviram-se murmúrios de aprovação na platéia. – e como eu já sou o líder do coro, eu acho que...

Mas antes dele terminar, todos já haviam se unido para gritar o nome de Caio – para a decepção de Honório.
Alexandre acordou no meio daquilo e levou um susto ao ver uma menina na sua frente.
— oh, você fica muito estilosa com esse chapéu assim.
Então Caio começou seu primeiro discurso de líder.
— Eu acredito que nós devemos ter algumas regras básicas pra um convívio adequado e prazeroso enquanto nós estivermos aqui. Nós também precisamos elaborar meios para que se torne o mais fácil possível que nós sejamos resgatados e que voltemos para casa. – ao som dessa palavra todos sentiram algo revirar em seus estômagos, mesmo sem comer nada há horas. Mas Caio não perdeu sua linha de pensamento. – Sempre que nós precisarmos nos reunir para falar de alguma coisa importante eu vou tocar a concha e vocês todos deverão se dirigir imediatamente para cá. Este será nosso centro de reuniões, nossa assembléia. Durante esses encontros, quem estiver segurando a concha terá a palavra e não poderá, em hipótese alguma, ser interrompido. Além disso, eu acho que nós devemos construir uma fogueira. Na remota chance de que algum navio passe por aqui, nós não podemos desperdiçar a oportunidade de sermos avistados e, conseqüentemente, salvos.
Porquinha pegou a concha.
— Nós temos que fazer a fogueira no alto daquela montanha para ela ser vista de longe. E com folhas e galhos verdes para fazer bastante fumaça. Quem vai ajudar?
— Eu não, eu já sou o anfitrião. Eu vou fazer uma coisa mais divertida e sádica. Eu e o meu coro vamos caçar.
— Caçar o que? – perguntou o menino de óculos, Manfrim, fazendo todos rirem e humilhando Cerejinha. – Vocês vão atrair passarinhos com o seu canto?
— Não. – disse ele, mais vermelho do que nunca. – Nós vamos fazer lanças e caçar porcos.
Caio acabou concordando e guiou todos para o alto da montanha para começar a fogueira – sempre sob o clamor iniciado por Vitor, outro menino do coro:
— Vilela, Vilela, Vilela, Vilela!

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07 janeiro, 2007

O Senhor de Peruíbe

O garoto corria abrindo caminho na mata. Debaixo do sol escaldante, ele afastou os cachos da testa suada. Um pouco à frente estava uma criança pequena; olhando mais de perto se via que era uma menina, a única por ali.
O menino finalmente conseguiu alcançá-la e segurá-la pela cabeça (o que a fez ficar vermelha de raiva até as orelhas).

— Eu sou o Caio – Ele olhou para a pessoinha se debatendo embaixo da sua mão. Então era uma menina. Seus cabelos cacheados louros (tá bom, castanho claros) estavam presos em um rabicho na nuca. Ela tinha lábios grossos, que se encontravam entreabertos, enormes olhos verdes e as bochechas salpicadas de sardas. Não, ele não ia se amedrontar com aquele bico e aquelas sobrancelhas franzidas!

— E você, qual é o seu nome?

— Que te importa? – ela cruzou os braços emburrada – Na escola me chamam de Porquinha.

— Porquinha?! – ele caiu na gargalhada, se distraindo e dando à garota uma chance de roubar o chapéu de palha que se encontrava sobre sua cabeça.

— É, Porquinha. E com muito orgulho! Por sinal, os porcos são animais muito limpos, mais que os gatos.

— Desculpa, eu não quis ofender.

Os dois caminharam lado a lado em direção à praia. O mar azul estava calmo e a brisa aliviou o calor dos dois depois da corrida. Eles seguiram ao longo da orla; atrás deles a praia seguia até onde a vista alcançava. Na outra direção, eles encaravam uma montanha, o ponto mais alto visível. E à esquerda, o mar se estendia sem o menor sinal de civilização até o horizonte.

— Meu pai me diz que eu não posso tomar muito Sol se não eu posso ficar com câncer de pele. Vamos até aqueles coqueiros ali na frente.

— Você vai queimar o seu rabinho, Porquinha? – e ele começou a rir dela enquanto ela cruzava os braços e fechava a cara de novo. – Desculpa – ele balbuciou tentando se controlar – O que nós precisamos mesmo é nos organizar, porque os outros não podem ficar perdidos por aí, sozinhos, especialmente os menores. Nem nós, imagina o que pode nos acontecer num lugar como esse, os animais selvagens. E ainda sem adultos para...

— Você sabe o que aconteceu com o piloto?

— Não, eu acho que ele deve ter pulado do avião antes do acidente. Mas veja bem, eu até entendo o lado dele, não haveria pára-quedas suficientes para todos os meninos, ele só estava tentando salvar sua própria vida. Ele pode ter filhos que...

— E os outros meninos? – interrompeu Porquinha de novo.

— Eu acho que ouvi uns gritos e vi alguns garotos perto do avião logo depois da queda.

Nesse tempo eles já tinham alcançado os coqueiros, que rodeavam uma lagoa razoavelmente grande, que parecia ser profunda, mas tinha águas claras. Porquinha, tendo aprendido a lição, não quis deixar Caio continuar:

— Você não quer dar um mergulho, não?

Ele achou a idéia boa e começou a tirar as roupas (ué, eles estavam fugindo da guerra, não dava pra pegar sunga e tal). Enquanto a menina, que estava sem disposição de nadar, se acomodava embaixo de um dos coqueiros, gritava para seu companheiro:

— E enquanto você estiver na água, por que você não pensa em um bom jeito de chamar os outros?

A água estava quente e Caio não se refrescou muito. Mesmo assim, o mergulho valeu a pena, o menino encontrou um tesouro, brilhando na areia no fundo da piscina. Uma concha delicada, branca, fina, porém resistente, bela (crianças, essa é a representação da civilização!). Caio achou que se soprasse a concha conseguiria emitir um som que atrairia todas as outras crianças para onde ele estava.

Ele mostrou seu achado a Porquinha, que logo tomou a relíquia de sua mão. Mas seus pequenos pulmões não foram capazes de fazer qualquer som. Mesmo o outro teve dificuldade em produzir algo sem ficar vermelho e ofegante. A nota que ressoou por toda a praia foi clara e profunda, lembrando a chaminé de um navio zarpando.

Pouco a pouco, meninos de todas as idades começaram a surgir da mata em todas as direções, curiosos para saber de onde vinha aquele clamor. Os que chegavam se deparavam com Caio, segurando sua poderosa concha, com os cabelos castanhos escurecidos pela água. Ele estava de pé numa pequena elevação da areia, com uma das mãos na cintura, em uma pose de Peter Pan, e o olhar firme, corajoso.

Os moleques, a princípio barulhentos e bagunçados, se sentaram em troncos velhos de coqueiros ou mesmo no chão como os alunos diante do professor. O mestre, por sua vez, encarou aqueles que paravam em sua frente; depois de se certificar de que ninguém mais se aproximava ele resolveu iniciar seu plano de civilizar aquele grupo.

Em primeiro lugar, ele propôs que cada um dissesse seu nome. Era uma pena que não tivessem papel, se não eles poderiam anotar tudo e fazer uma chamada a cada manhã.

Caio começou, ele mesmo se apresentando. Depois Porquinha, todos olharam assustados para aquela intrusa; mas ela se entrosou rápido. Havia também um menino de óculos (e esse é o símbolo da sabedoria): Manfrim; outro com um cabelo grande e esquisito que cobria metade da cara; um par de gêmeos, não idênticos mas muito próximos, tanto que ficaram conhecidos como Bacchiemarcel, como se fossem uma pessoa só (hahaha, a vingança é doce); e muitos mais. Bacchi não se lembrou de metade.

De repente, as apresentações foram interrompidas pelo choro de um dos meninos mais novos. Ele se jogara no chão, encolhido e gritava:

— O monstro! O monstro serpente!

Caio se aproximou, um corredor silencioso se abriu para ele.

— Mas que mostro? O que aconteceu?

— Eu vi ele saindo do meio das plantas.

Porquinha chegou em seguida e tentou acalmá-lo perguntando quem ele era.

— Denis (...). Av. (...). São Paulo. 3000-0000. Denis (...). Av. (...). São Paulo. 3000-0000...

Até que ele caiu no sono. Os outros começaram a rir do pobre Denis, só que com certo nervosismo por causa da idéia de um monstro na floresta. Eles deixaram o garotinho aos cuidados de Porquinha e voltaram sua atenção para uma mancha preta que vinha pela praia.

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