15 fevereiro, 2010

Cinza

O som da música e das vozes aos poucos se afogava na chuva, até desaparecer por completo. Esgueirei-me pelo muro do jardim (o horror dos jasmins e das rosas inglesas), chutei um anão de cerâmica e enfim saí na rua deserta.


Segui pelo caminho difuso das luzes dos postes enfileirados – a canção silenciosa da noite. É preciso fazer-se cego e confiar na geometria da teia de aranha.


Deslizei pela espiral chapinhando os pés no ritmo do charleston, até que finalmente cheguei ao ponto em que não havia mais luzes sobre meus pés, apenas adiante de mim – o último vagalume das horas altas.


Levantei a lona e pude sentir o cheiro palpável de alguém não acostumado a receber visitas. Mas ele não se assustou, nem mesmo fingiu estar surpreso.


Olá - disse ele - sem levantar a cabeça do papel. Escrevia sem parar. Estava rodeado de pilhas de papéis sujos e completamente escrevinhados com letra miúda, os escritos intercalados com diagramas complexos de invenções revolucionárias e invisíveis.


Tirei meu paletó encharcado e lhe entreguei a garrafa. Isso o fez largar o lápis e seus dedos ossudos se fecharam em volta do gargalo. A minha oferenda fora aceita.


Juntou os papéis que estavam em seu colo e os colocou de lado. Inclinou-se um pouco e pôs-se a espiar a chuva por uma fresta na lona. Suas pálpebras estavam pesadas e cheguei a pensar que fosse dormir. Contudo, num movimento rápido, fechou a abertura e colocou o velho lampião entre nós. A luz amarelecida cavava sombras em seu rosto fazendo as rugas parecerem mais fundas.


Conta-se - começou ele, a voz baixa como para não acordar alguém - que em dias hoje cabalmente esquecidos pelas gentes que palmilham sob esta chuva e estas árvores, numa cidade assim não longe daqui, mas também não muito perto, tinha esse homem, entende?


Ficamos em silêncio até que fiz um movimento de cabeça para que continuasse.


Esse homem gostava de desafiar o equilíbrio do éter, de se pendurar por aí, encarapitado em telhados e lugares altos do tipo. De se despregar do chão e ficar mais perto das nuvens, mas não tão perto a ponto de derreter a cera, era mais aquela vontade heliocêntrica e absolutamente holística de se aproximar de Deus. Porque na verdade o alfabeto começa com D e termina no S. Então vivia assim, alfabeticamente encarapitado que nem um corvo porque sabia que se ficasse na terra um dia ia ser peremptoriamente inescapavelmente digerido, sabe como são essas coisas. Gostava de seguir as linhas, as linhas entende, e mesmo nas ruas só andava equilibrado no meio fio. Era isso, era isso que era, um equilibrista consumado no dia a dia dos dias que giram e vibram no infinito da palma da mão na freqüência das super-cordas. E tinha esses dois prédios enormes, absurdos e sarapintados de janelas de vidro que refletiam a cidade toda. Sabe – e chegou mais perto de mim, um sorriso nos lábios – dizem que isso deforma a imagem, mas a verdade é que mostra a cidade como ela realmente é. E esse homem ficava tardes e dias e noites com os olhos infinitesimalmente colados nesses prédios porque ele sabia que tinha que subir lá em cima e beijar a bunda lucescente e doce do céu de diamantes. E não me pergunte como, mas ele conseguiu esticar uma corda assim meio minhoca entre um prédio e outro, e um belo dia foi-se para lá inacreditavelmente estúpido e resoluto para andar naquela corda e tornar-se o último nefelibata. A cidade toda parou para ver aquele homenzinho (não que ele fosse um anão ou algo do gênero, mas você pode imaginar que lá de cima ele parecia muito pequeno) pondo um pé atrás do outro (ele só tinha dois, veja bem), e foi-se naquela corda bamba que de certo modo se parecia com um bambu. Lá embaixo ninguém despregava os olhos dele, pois seu pioneirismo era motivo de “ohs” e “ahs” e apostas de que eventualmente cairia e quebraria o pescoço. Mas ele ia bem, de equilíbrio impecável, resultado de anos dançando nas cumeeiras. Esse era o seu tempo e seu momento, perfeitamente a meio caminho entre o chão e os planetas girantes em suas órbitas indiscutivelmente lunares, apesar da fixação solar de Copérnico. E aquilo era o melhor que tinha vivido, porque aquele lugar de ninguém podia tornar-se seu. Algo como usucapião, entende? – ele agarrava a garrafa contra o peito, os dedos brancos – Mas quando chegou à metade do caminho parou. E ninguém entendeu, ele estava indo tão bem! Mas empacou, e não havia grito ou vento que o tirasse de lá. Ele nunca olhava para baixo, ou mesmo pros lados, porque seus olhos estavam trancados em frente, para alguma coisa solipsisticamente única. Aos poucos as pessoas perderam o interesse e voltaram a fazer o que quer que estivessem fazendo quando pararam para ver o equilibrista, e ele continuava ali. Nos dias seguintes apenas alguns ainda se lembravam de dar umas espiadelas safadas para o alto para ter certeza de que aquilo não foi uma ilusão dessas bem gordas. Acho que ele finalmente tinha encontrado o que quer que seja que estivesse procurando, isto é, partindo do princípio ínfimo (porém radiofonicamente plausível) de que estivesse mesmo atrás de alguma coisa.


Esse homem - comecei, a voz trêmula – ficou lá... Para sempre? – pois suas histórias sempre tinham possibilidades infinitas.


O quê? Claro que não... Um dia olharam para cima e não tinha nem rastro nem cheiro dele. Só a corda estendida de um lado a outro, abandonada. Nunca mais foi visto.


Ainda ficamos alguns instantes entreolhando-nos na luz mortiça do lampião, até que ele finalmente abaixou a garrafa e retomou sua escrita. Era o sinal de que não havia mais nada a contar ou a ouvir. Mas não consegui parar.


O que ele viu? O que encontrou lá?


Como vou saber? – não tirou os olhos do papel.


Isso não faz sentido! Como assim ele simplesmente desapareceu? Algo deve...


Olhe aqui – os papéis escorregaram – esse homem sumiu, escafedeu-se, e hoje devem achar que ele nunca existiu. Porque ali em cima ele viu, e depois disso nada poderia remotamente voltar a girar nos círculos concêntricos e brancos em que as formigas e você e todos os outros caminham todos os dias! E depois que se vê não se pode voltar, não se pode...


Onde está ele agora?


Só se ouvia o rumorejo da chuva lá fora. Seus olhos estavam muito brilhantes.


Como posso saber?

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17 outubro, 2008

Branco

hey jenny rose
desjejum na cama e alma na lama, certo?

sempre quisera dizer ele mesmo essa frase, e agora que finalmente o fazia era uma pena que ela não pudesse ouvi-lo, apesar de as palavras inegavelmente murcharem um pouco sem a inimitável entonação de billy jack, cavalgando pelo chaparral pouco depois do pôr-do-sol e logo antes dos créditos finais; o ar estava confinado entre as paredes do quarto, a camisa já colava no suor do corpo, mas o homem não quis abrir a janela, limitou-se a dissipar a escuridão acendendo o abajur – a luz então engatinhou pelo espaço, revelando aos poucos o que ele continha; era uma luz muito generosa, dessas que suavemente omitem todas as imperfeições – ou pelo menos a maioria delas; deste modo o homem podia ignorar o descascado do papel de parede pois, por alguma razão, olhar para aquilo era como ver um trem vagaroso desaparecendo numa curva lá longe; a mão direita brincava com as franjas da cúpula do abajur, enquanto a esquerda afrouxava a gravata; apesar de tudo, não havia outro lugar em que gostaria de estar naquele momento, sentado naquela poltrona, de frente para a cama em que ela dormia – os cabelos por todo o travesseiro, os braços e pernas derramados, a pele tornada pluma pela bondade da luz; o homem acariciou o tecido roto da poltrona como se acariciasse aquilo que via; o sono tranqüilo ditava o ritmo pesado da respiração; ela respirava como se o mundo se abrissse todo – sincero e sorridente – para aqueles que não têm medo e, acima de tudo, não têm o que temer; aos poucos, na ponta dos pés, o som da respiração – quase, quase inaudível – alcançou o homem em sua poltrona e tateou-o com delicadeza, percorreu seus dedos inquietos, seus braços, até chegar na garganta e a partir daí deslizar até o ventre, onde então aninhou-se e passou a difundir seu ritmo cadenciado por todo o corpo; era como se o homem estivesse preso à mulher por uma linha invisível que, a cada expiração, ficava um pouco menor; quando a linha ficou curta demais, teve de se levantar; escorregaram, relutantes, os dedos pelo tecido gasto; cada passo seguia no entretempo da respiração; ali, enfim tão perto, tirou o paletó e colocou-o ao pé da cama; num gesto um pouco nervoso, afrouxou ainda mais a gravata; aproximou-se; levou o nariz para bem perto dos cabelos da mulher, percorreu seu pescoço, seus ombros; muito de leve, tocou seu braço; ela se mexeu, inquieta, ainda dormindo; virou um pouco a cabeça para o outro lado; o ritmo foi interrompido, a respiração mudou, a linha partiu-se; a luz tornou-se transparente demais, clara demais; as flores desenhadas nas paredes emergiram irremediavelmente esfaceladas; uma gota de suor escorreu pelo meio das costas; era – ou parecia ser - um domingo, e a frase de billy jack era tão, tão tola; tudo o que estava fora daquele quarto era uma memória longínqua, um sussurro no escuro; o homem afundou os dedos no outro travesseiro, apertou até a dor subir pelo punho; quem dera derramar também seus braços e pernas junto a ela, quem dera, quem dera; trouxe o travesseiro para perto de si, o rosto da mulher estava escuro contra a luz do abajur, a boca ligeiramente entreaberta, suspendeu o travesseiro, sim, deveria ser mesmo um domingo, apertou o travesseiro com toda a força, sim, de uma vez por todas a linha havia sido rompida, a mulher debateu-se, as unhas arranharam em meio ao desespero, as pernas chutaram em espasmos, ele apertou com mais força, os dedos dela cravaram-se nos braços dele, o novo ritmo era ditado pelos gritos abafados – então os dedos soltaram-se e os braços penderam com uma graciosidade que nunca tiveram em vida.

Limpou o suor da testa. Colocou o paletó. Arrumou a gravata. Tirou o travesseiro da mulher e beijou-a com amor redescoberto. Apagou o abajur. Pensou um pouco e acendeu-o de novo. Abriu a porta e saiu.

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15 junho, 2008

Amarelo

correr
os pés correm sobre a terra morna o aroma áspero das flores se faz ouvir no zumbido dos besouros a menina corre encosta abaixo os galhos secos dos arbustos arranham seus tornozelos rasgam a barra do vestido florido a tarde se despede

Não havia nada mais bonito.
A seda branca se esparramava até o chão, leve, e a luz se estilhaçava nos arabescos das rendas.
Ela tocava o próprio corpo como se não pudesse acreditar no tecido que a envolvia, como se não pudesse acreditar que chegara a hora.
Virou-se para o espelho, ansiosa. Seu reflexo lhe descortinou inúmeras possibilidades, todas igualmente aprazíveis e palpáveis. Sorriu para o contrário de si mesma com toda a felicidade que tinha dentro de si e, com um estalo inaudível, uma rachadura percorreu todas as coisas, irremediavelmente.
Ela nunca me sorriu assim.

Já não faz diferença a dor nos tornozelos, não mais.

De repente, naquele mundo quebrado, o vestido florido pareceu obscenamente simples e feio.

As sombras se alongam sobre a terra, e a partir delas os insetos tecem a noite. Ouve-se um repicar de sinos, sob o qual se degusta o fluido macio das cantilenas amenas, entoadas lá de longe, onde as pessoas dançam e celebram, absoluta e miraculosamente inconscientes de tudo aquilo que não se vê no momento presente.
A música se desprende dos corpos dançantes, pegajosa, e desliza pelo vale, estica seus braços até não mais poder, até encontrar apenas o eco das pedras mortas e da terra seca.

Quando o vento e a chuva fustigavam as janelas, ou quando as sombras dos móveis e das árvores assomavam assustadoras, ela surgia. Ela a tomava nos braços, cantarolava melodias desajeitadas no ouvido da irmã mais nova, corria os dedos em seus cabelos. E então o mundo voltava a ser pequeno e familiar, graciosamente plano e previsível.

os grãos de terra entram por sob as unhas a encosta torna-se mais íngreme e os pés continuam correndo correr é a única coisa que se pode fazer a única coisa que merece ser feita que precisa acontecer correr para onde não existem espelhos para onde o ar abafado não carrega canções

Água. Deixar-se cair na água.
A superfície especular quebra-se em mil ondulações e, com um último som brusco, o mundo desabrocha num silêncio absoluto.
Afundar.

Ela agora estava longe, muito longe, entre os sinos alegres, inalcançável, envolta em rendas, entre cantilenas serenas – além. O sorriso havia sido o fim.

Aqui embaixo tudo é escuro, os movimentos são lentos, nada começa e nada acaba.
Agora as sombras estão livres para enredar; o medo dança livre, lascivo. Dedos nos cabelos, abraços carinhosos e dolorosos cristalizados num vislumbre translúcido, fossilizados na inexistência futura.
Cante para mim com seus olhos cegos.

É preciso respirar.
Emerge com a coragem dos desesperados e o ar se faz sorver, agudo como uma lâmina.
As flores de tecido se esparramam pela água, leves.
As vozes do vilarejo ainda deslizam pelo vale,
miragem,
os besouros esverdeados voam cada vez mais rápido, em círculos,
zumbido,
aos poucos as vozes se perdem pelo caminho, se desmancham por entre o cricrilar que se eleva das plantas.
As libélulas dardejam, bailarinas, mergulham no que sobrou da tarde, puxam os fios de sombra e os fazem envolver.
A água acaricia a pele, beija as feridas nos tornozelos.
A escuridão, de repente, se desarma.
Água fria entre os cabelos, silenciosamente delicada, o acalanto da falta de luz.

por si só
ser

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23 março, 2008

Violeta

A música parecia ser a única coisa real ali dentro. Ela espiralava no ar, lenta, sonolenta, sonâmbula, só para então ressurgir furiosa, impetuosa, impiedosa.
Absurdamente doce, apesar de tudo.
Ele gostava do jeito que as cordas do contrabaixo vibravam, tornando-se um borrão sob os dedos do músico. Gostava de como se criava o som a partir do indiscernível.
Havia algo de reconfortante em sentar-se em uma daquelas cadeiras carcomidas e, com os olhos fechados, seguir a trilha das notas que exalavam do contrabaixo. Ouvi-lo era como ouvir passos a distância. Como ouvir passos em sonhos.
Para chegar até ali, o homem havia seguido por ruas inúmeras, pelas inúmeras ruas da cidade, ruas molhadas de chuva em que se refletiam os faróis e as luzes dos carros, como uma impressão difusa e úmida de olhos vidrados.

Ali dentro, as mesas e cadeiras estavam protegidas pela penumbra suave. De um lado, o palco em que os músicos tocavam banhados por uma luz amarela e pesada como a lua lá fora; uma luz que dançava por sobre as superfícies, as peles, as madeiras, os metais, o som. Do outro, atrás do balcão, o grito histérico dos néons ressoava através dos copos e taças enfileirados nas prateleiras. O vidro amplificava a luz, e também a distorcia.


O homem estava no carro, tamborilando os dedos no volante. Tinha tido o cuidado de estacionar a uma distância segura, em um lugar em que se via a rua toda. A rua se abria para ele, inconsciente. As pessoas andavam por ela, iam para onde deveriam ir, para onde queria ir, e não sabiam, jamais poderiam saber que ele estava ali.

Em um dos prédios baixos, uma mulher abriu a cortina, e seus olhos varreram a paisagem enquadrada pela janela. No carro, o homem já estava com a câmera em mãos.

A mulher debruçou-se sobre o parapeito.

Essa foi a primeira foto.

Então um homem surgiu atrás dela. Ela se virou.

Essa foi a segunda foto.

O homem avançou alguns passos e lhe tomou a mão. Seus lábios se mexeram silenciosos e a mulher riu, mas não era possível ouvir sua risada.

Foto.

O homem puxou a mulher para perto de si com um único movimento fluído, despreocupado.

Ela riu de novo. As bocas se juntaram, no meio do riso que não se podia ouvir.

Foto.

Os dois giraram, enlaçados. O homem estava de costas para a janela. O dedo já pressionava o botão da câmera, prestes a disparar, quando de súbito a mulher abriu os olhos.

Essa foi a última fotografia.

Só depois, sob a luz vermelha do quarto escuro, é que viu que a mulher, do outro lado da rua, olhava diretamente para a câmera. Ele sabia que ela não poderia tê-lo visto, mas aquela ilusão, aquele acaso tornava a fotografia impossível, intolerável.

O pianista jogou a cabeça para trás, o pescoço uma curva gentil. Os olhos estavam fechados, apertados. As mãos deslizavam ágeis pelas teclas até que, seguindo um tropeço no ritmo, se suspenderam no ar acima do teclado, trêmulas. No instante seguinte estavam de volta, como se nunca tivessem parado. As pálpebras se fecharam com mais força.

De qualquer forma, tocar era sofrido.

Ele havia tirado o chapéu assim que passara pela porta. Encontrou diante de si as familiares cadeiras e mesas, o palco amarelo e o homem atrás do balcão, que levantou os olhos por um segundo apenas, antes de voltar a limpar um copo com um pano encardido.

Caminhou até uma das cadeiras e sentou-se, colocando sobre a mesa a câmera e a fotografia terrível. Por alguma razão, não conseguia se separar dela – andava com ela no bolso e, apesar de evitar vê-la, às vezes não resistia. Então era como se seus olhos queimassem com uma dor aguda, e ele a guardava de novo, limitando-se a tocar nela com as pontas dos dedos.

O homem continuava absorto em sua limpeza com o pano sujo; ali do lado, uma mulher debruçada no balcão, a cabeça pousada nos braços. À sua frente, um copo pela metade.

A voz do saxofone irrompeu numa única nota, límpida e triste. Ele agarrou a fotografia.

Atrás do balcão, o outro homem parara de limpar, e olhava para o palco com as pálpebras pesadas, como se admirasse um horizonte distante. Sua figura estava escura contra a luz fria dos néons, que parecia irradiar dele como um halo sinistro.

No rosto da mulher, uma lágrima escorria ao ritmo do blues. Ah, nada como a violência sutil e corrosiva do amor e das violetas.

Se o que a corroía fosse uma dúvida, talvez ele pudesse ajudar. A suspeita e a imaginação são as mais cruéis, pensou, mas eu poderia acabar com isso. Trazer a prova. Destruir as dúvidas. E nem cobraria nada. Não cobraria dela.

Seria mais uma fotografia terrível?


Num movimento sincopado, os sons agudos e lânguidos do piano embalam a base tribal do baixo, por sobre a qual desliza o lamento do saxofone. A música ondeia no palco amarelo; dilata-se e contrai-se, espalha-se pelo ar, incerta.

O homem voltou a limpar com seu pano encardido.

A mulher não está mais lá. No balcão, apenas o copo vazio.

O homem pega a câmera e, nos braços da penumbra, tira uma foto do palco. Mais tarde, no quarto escuro, perceberá como as sombras dos músicos parecem fantasmas à espreita, e como as cordas do contrabaixo se congelam imóveis e curvas em sua distensão.

Mas neste momento tudo é sombra, exceto talvez o que se pode ouvir.

Pousa a câmera na mesa. Hoje, e apenas hoje, ficarei aqui, onde o amanhã não precisa existir.

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07 dezembro, 2007

Vermelho

As pessoas passam tão rápido por mim que tenho a impressão de que elas se esvanecem assim que não posso mais vê-las. Meus pés autônomos me conduzem pelas ruas labirínticas. Um riquixá atravessa a rua. É como se eu nadasse contra a correnteza de um rio. Mas não é um rio silencioso. As vozes dos transeuntes se misturam aos gritos dos vendedores. Galinhas, cães e porcos contribuem para a ladainha que se suspende no ar. Este é o coro matinal. As pessoas escorrem por todos os espaços. Por todas as frestas. Por todas as rachaduras destas vielas. Uma carroça carregada de panos coloridos se desequilibra e cai. Metros de tecido amarelo se desenrolam pela rua. É um rio de ouro. Acho que um dia também serei tragado por estas ruas. Também irei me desvanecer quando ninguém olhar para mim. Todos estão atarefados hoje. Mais do que nos outros dias o mundo se descortina em uma explosão de som e cor. É sempre assim na véspera do Ano Novo.
Tudo silencia no momento em que fecho a porta.
Tiro minhas sandálias e coloco meu ábaco de lado. Sempre vivi aqui, mas me sinto desconfortável em fazer qualquer tipo de barulho; parece que o silêncio faz parte da casa - acho que ele sempre esteve aqui... Me pergunto se um dia irá embora.
Avanço pé ante pé. É de novo como um labirinto, mas sem divisões visíveis - apenas quem viveu aqui a vida inteira sabe onde pisar para que o gemido do assoalho não perturbe o silêncio.
Quando entro no jardim as vozes e as pessoas da rua já me parecem tão distantes, como lembranças de anos atrás. Meu mundo mais uma vez é o que vejo, e só isso. Não existe mais nada além deste jardim e meu avô.
Sempre que volto da escola encontro meu avô assim, sentado em um banco alto, escrevendo em sua mesa. Ele levanta ligeiramente a cabeça; é o sinal de que me viu, e agora posso me aproximar.
Meu avô, como sempre, não diz nada. Apenas escreve. Vejo como o pincel macio serpenteia lentamente, desenhando curvas de tinta negra. É extremamente difícil guiar o pincel em um retângulo de papel tão pequeno, e ao mesmo tempo dar vida a cada traço.
Um dia serei eu no lugar do meu avô, e meu neto depois de mim, ou pelo menos assim deveria ser se não fosse pela minha caligrafia trêmula e irregular. Os pedaços de cerâmica que uso para praticar estão amontoados em um canto do muro, como um lembrete constante da minha inabilidade. Na verdade, a idéia de substituir meu avô me parece absurda - ele é eterno. Tenho a sensação de que ele vai estar para sempre aqui, sempre ocupado com as minúsculas linhas escuras e sinuosas.
Ele me entrega um papelzinho. A tinta está molhada, e com muito cuidado o prendo no enorme varal. Ali estão centenas de papeizinhos a secar, quadradinhos brancos refletindo suavemente a luz do sol. Seriam absolutamente iguais se não fosse o escrito em cada um - as mensagens nunca se repetem.
Volto a olhar meu avô. Ele já está escrevendo de novo, no mesmo ritmo imutável, sempre debruçado sobre a mesa, esculpindo as palavras.
Dou a volta no varal, que é mais alto do que eu e está coberto de papéis, pendurados nas cordas finas que vão do chão até em cima. Escolho um ao acaso e leio:
Raiz funda não sofre o frio
O que isso quer dizer? Talvez o mais difícil não seja dominar os segredos do pincel, mas sim entender o significado inescrutável dessas mensagens.
Uma lufada de vento agita as folhinhas brancas, que por instante ruflam como passarinhos prestes a alçar vôo. Posso imaginar uma revoada de pássaros de papel, tão pequenos, mas que voariam juntos até cobrir o sol, para então dispersarem-se no ar levando mensagens de prosperidade e fortuna até terras longínquas.
Contudo o vento vai embora, e estes papéis inquietos continuam aqui.
Meu avô continua escrevendo, e eu continuo pregando-os no varal, sem realmente entender o que está escrito neles.
Meu avô levanta de novo a cabeça: é hora de recolher aqueles que já secaram.
Pego a cesta que está do lado do varal. No momento em que coloco as mãos no primeiro papel tenho a sensação de que ele vai se desvencilhar dos meus dedos e fugir pelo ar, mas o coloco dentro da cesta e nada acontece, como se ele tivesse subitamente se resignado ao seu destino.
Demoro a tirar todos os pássaros, ou os papéis, não sei mais. Aos poucos o sol desliza no horizonte, e quando a cesta está cheia sei que devo sair de novo.
De novo seguirei pelas ruas escuras e sinuosas, até chegar à loja de biscoitos. Por enquanto é só isso que eles são, biscoitos apenas, mas assim que tiverem dentro deles as mensagens que meu avô se dedica a escrever se transformarão em biscoitos da sorte.
Abro a porta, pronto para sair, mas antes de me submeter à vontade dos meus pés e enveredar pelas vielas, me permito ficar aqui por um instante. É neste momento em que todos os caminhos se abrem para mim, e eu ainda não fiz a escolha. Gosto da sensação de possibilidade. As ruas estão vazias enquanto as pessoas, em suas casas, se preparam para o início das festividades. Vejo as lamparinas penduradas nas casas, irradiando suavemente uma luz bruxuleante como se fossem as próprias expectativas que preenchem estas últimas horas. Minha mão desliza para a cesta, e remexo os papéis antes de pegar um.
Lá atrás a casa
Em frente o mundo
Fico um bom tempo olhando para o papelzinho. Sempre antes de sair para a entrega acabo pegando uma das mensagens. Invariavelmente seu sentido será duvidoso. Seguirei pelas vielas, tentando não pensar mais em coisas que não tenho como saber. Mais cedo ou mais tarde, porém, me refugiarei na certeza de que ano que vem, independentemente do que aconteça durante os doze meses, nas últimas horas tudo será como é agora. Mas o papelzinho continua em minhas mãos, e dessa vez me pergunto se foi mesmo apenas o acaso ou se há afinal um sentido predestinado que se manifesta no final do ano.
Então, no final da rua, sob o lusco-fusco das lamparinas, o varal de meu avô se estende diante de mim com uma nitidez assustadora. A luz difusa se reflete no branco dos papéis. Eles são tantos... Um sopro de vento vem suave, e todas as mensagenzinhas se agitam com um som de bater de asas. Tenho que colocá-las na cesta, tenho que recolher todas, mas aos poucos os papéis se soltam
Ouve a terra, as nuvens
e planam no ar. Quanto mais tento agarrá-los mais eles se soltam, cada vez
Talvez te espere noutra
mais rápido,
esquina/Porta secreta ou nova sina
não consigo ver direito
O mundo é grande
no meio deste redemoinho de papel,
e pequeno
estendo minhas mãos
Não há nada para
para pegá-los mas
mudar o ânimo
eles escorregam por entre os dedos
como uma viagem de verão
e no fim vão todos embora em revoada.
Pisco os olhos uma, duas, três vezes. Estou na frente da loja de biscoitos, e os papeizinhos estão na cesta, imóveis.
Estas últimas horas são as mais incertas, indefinidas.
Levanto o punho e bato na porta.

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21 outubro, 2007

Azul

O homem ofegava baixinho enquanto se movia furtivo por entre as árvores. Tudo estava muito quieto à sua volta e o menor barulho, sabia ele, tiraria a floresta escura de seu sono leve.

Andar por ali à noite era como dançar; uma dança lenta e suave, com movimentos calculados.

E um, e dois, e três, e um...

Estava frio, e o homem via a sua respiração se condensar em uma nuvenzinha translúcida, só para desaparecer no instante seguinte.

Ele sabia que devia estar perto; os rastros no chão úmido não mentiam e em breve, muito em breve, ele o encontraria.

Se o homem não estivesse tão absorvido em sua busca talvez tivesse notado que aquela de fato não era uma noite como as outras e que a floresta, como se sentisse isso, também não era a mesma dos outros dias do ano.

Mais à frente, um graveto se quebrou e, assim, ouvindo antes de ver, ele soube que o havia encontrado.

Ali, a poucos metros, o Cervo Branco comia tranqüilamente um pouco da grama fresca. As arvores nessa parte da floresta não eram tão próximas, e o luar penetrava por entre as folhas fazendo tudo parecer feito de prata, recobrindo o instante com uma surrealidade onírica.

O homem não podia deixar de se maravilhar com o que via. Finalmente, finalmente... Era mesmo verdade. E era dele. O Cervo Branco tinha saído das lendas e agora estava ali, à sua mercê. Agora, cada desejo de seu coração, por mais desesperado, absurdo ou impossível que fosse, se realizaria.

Com todo o cuidado, seguiu para o próximo passo daquela dança solitária e lentamente levantou o arco. Com a outra mão, buscou uma flecha na aljava às suas costas. Com a delicadeza de quem coloca a linha no buraco da agulha, posicionou a flecha no arco de madeira. A seta parecia ainda mais aguda e afiada sob a luz da lua, como se pedindo para se cravar na pele macia do Cervo. Aos poucos, muito devagar, foi puxando a corda do arco. E um, e dois, sem pressa, e um... Naquele momento, naquele último segundo antes de os dedos se soltarem e a flecha sair voando com um brilho mortal, de algum lugar da floresta ressoou alto um pio de coruja, como um agouro sinistro.

De repente, as árvores prateadas começaram a uivar com um vento forte e frio. A flecha escapou dos dedos e com um silvo atravessou o teto de folhas da floresta, furando o ar furiosamente como se quisesse tocar a lua; foi diminuindo de velocidade até que parou e se suspendeu no vazio pelo que pareceu uma pequena eternidade, apenas uma pausa naquela dança peculiar, para no segundo seguinte despencar mais rápido do que tinha vindo, indo cair muito longe do arco que a lançara.

Ali, no ponto de partida, estava o homem jogado no chão, ainda confuso. Tudo acontecera tão rápido que ele havia perdido o equilíbrio. Massageava a própria cabeça no lugar dolorido onde esta havia batido com força em alguma raiz proeminente.

Sentiu mais uma pontada dentro do cérebro, mas não era dor; era a quase esquecida noção de que ele estava numa caçada, e que se continuasse ali no chão, o Cervo Branco escaparia por entre as brumas da floresta para nunca mais ser encontrado.

O homem se levantou o mais rápido que pôde, quase escorregou e por pouco não caiu de novo. Estendeu o braço com o arco, a outra mão a meio caminho da aljava quando percebeu que algo estava terrivelmente errado.

O Cervo Branco. Onde estava ele? O homem sentiu como se uma mão de gelo agarrasse seu peito, e o pensamento desesperado de que o Cervo estava perdido irrompeu com tanta força em sua mente que por um momento o impediu de ver que isso não era tudo.

A apenas poucos metros, no lugar do Cervo se encontrava um mulher. O homem ainda piscou várias vezes, como se esperasse que ela fosse alguma conseqüência da pancada na cabeça. Mas como ela se recusava a simplesmente desaparecer diante dos seus olhos, ele foi obrigado a aceitar que ela era real, pelo menos tão real quanto as coisa podiam ser naquela noite.

A mulher era muito branca, e sua palidez etérea parecia emitir um tênue brilho próprio. Tinha os cabelos pretos, tão escuros quanto a pele era clara, e cobriam suas costas como uma capa de veludo e, ainda assim, pareciam tão tangíveis como se feitos da penumbra da noite. Usava um vestido que parecia ter aquela mesma leveza e luz própria da mulher que o vestia.

Era tudo muito estranho.

Mas a misteriosa mulher parecia não notar – percorria os arredores com seus grandes olhos escuros, curiosos. Deu um risinho, como se muito satisfeita de estar ali. Andou alguns poucos passos, parecendo feliz de sentir a grama macia sob os pés e ver acima de si as estrelas, por entre as copas das árvores.

Impossível dizer quanto tempo ela ficou por ali, perdida no próprio encantamento, caminhando por entre as árvores com tanta leveza que o caçador chegou a se perguntar se ela realmente tocava o chão.

Ah sim, o homem continuava no mesmo lugar, um braço empunhando o arco, o outro ainda a caminho da aljava, como que congelado. Simplesmente não conseguia acreditar no que via. Mas se ele achava que as coisas não podiam ficar mais esquisitas, ele estava errado.

A mulher tinha a cabeça levantada, os olhos arregalados e sonhadores com se o que estivessem vendo fosse absolutamente fantástico e espantoso; nos lábios, um sorriso aberto. Todavia, no instante seguinte o sorriso se apagou e os olhos piscaram como se procurando a antiga fonte de deleite, até que encontraram outro par de olhos – o do caçador.

O tempo pareceu parar, e o mundo definitivamente havia deixado de girar. Ninguém mais dançava. Só existiam aqueles dois grandes olhos pretos, nada mais.

Por uma fração de segundo o homem teve medo, mas uma voz fraca e distante dentro de sua cabeça descartou a sensação como sendo boba, e então ele percebeu que o que mais queria era se congelar naquele momento, para sempre.

A mulher inclinou a cabeça levemente para o lado, o olhar ainda pousado no caçador, e se dirigiu a ele, como se flutuasse.

O homem continuava plantado no chão, os pés pesados demais para sair do lugar. Aos poucos foi baixando o arco, os olhos fixos na estranha aparição.

Ela chegou bem perto dele, seus narizes a dois palmos de distância. A lua ainda banhava tudo com uma estranha luz prateada e, no instante em que a atmosfera estagnada foi rompida por um leve farfalhar de folhas, a mulher levou seus dedos longos e brancos à face do caçador, que estremeceu com o repentino toque frio.

Apesar do arrepio que lhe percorreu a espinha, ele não saiu do lugar. Os dedos começaram então a percorrer suas feições, o contorno da boca, a linha das sobrancelhas, o relevo do nariz. Era um toque glacial, que deixava um formigamento na pele – mas não era desagradável. E os olhos, sempre pretos e grandes.

De repente, a mulher retirou a mão do rosto do caçador e a levou aos próprios lábios, como se pedindo silêncio. Nesse momento o caçador percebeu que nunca contaria a ninguém sobre esta noite na floresta, mesmo porque não acreditariam nele. Na verdade, ele nunca diria nada sobre o episódio pois sabia que o encanto inexplicável do acontecido se dissiparia como névoa assim que deixasse sua boca.

E então o silêncio pesado se rompeu abruptamente como vidro estilhaçado, quando um vento furioso passou rugindo por entre as árvores.

Ao longe ressoou um pio de coruja, longo e triste.

O homem abriu de novo os olhos. À sua frente apenas os olhos grandes e pretos do Cervo Branco, que piscaram assustados antes de desaparecerem rápido por entre as árvores da floresta.

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